Aproveitando a deixa da citação de livros, também vou fazer a minha:
"O material do poeta é a vida, e só a vida, com tudo o que ela tem de sórdido e sublime. Seu instrumento é a palavra. Sua função é a de ser expressão verbal rítmica ao mundo informe de sensações, sentimentos e pressentimentos dos outros em relação a tudo o que existe ou é passível de existência no mundo mágico da imaginação. Seu único dever é fazê-lo da maneira mais bela, simples e comunicativa possível, do contrário ele não será nunca um bom poeta, mas um mero lucubrador de versos"
Trecho de Sobre a Poesia, de Vinícius de Moraes Seu Vizinho1:08 PM
Código secreto dos brasileiros
Há um código secreto entre nós brasileiros - "amanhãs" que nunca chegam; "apareça lá em casa", na realidade não é um convite, mas uma maneira de se despedir cordialmente; "virei se Deus quiser", significa "não conte com minha presença"; "já foi providenciado", ou seja, "ainda não vi o caso e não sei do que se trata"; "eu telefono mais tarde" e "a gente se vê" são sinônimos de "eu não tenho tempo agora".
Mais códigos secretos ...
"Pô, você sumiu??" significando "eu me esqueci de você" ou "não tive tempo para me preocupar com você, agora que eu o vi é que lembrei que você existe"; "fica prá próxima", "fico lhe devendo essa" podem significar "não me aborreça, não estou interessado";"deixa comigo", que poderá significar "se der tempo eu vejo esse negócio", e quando esquecermos de tomar providências basta a resposta "eu tentei, mas houve um desencontro".
Do livro dando um jeito no Jeitinho, por Lourenço Stelio Rega
Il a tout vu
Il a tou tu
Et puis un jour
Il a tout bu
Vous l´avez su?
Il a mis le café
Dans la tasse
Il a mis le lait
Dans la tasse de café
Il a mis le sucre
Dans le café au lait
Avec la petite cuiller
Il a tourné
Il a bu le café au lait
et il a reposé la tasse
Sans me parler
Il a allumé
Une cigarette
Il a fait des ronds
Avec la fumée
Il a mis les cendres
Dans le cendrier
Sans me parler
Sans me regarder
Il s´est levé
Il a mis
Son manteau de pluie
Parce qu´il pleuvait
Et il est parti
Sous la pluie
Sans une parole
Sans me regarder
Et moi j´ai pris
Ma tête dans ma main
Et j´ai pleuré
No relógio digital
Ao lado da minha cama
O tempo não passa mais.
Os grilos e as cigarras
Já pararam de cantar.
E até os passarinhos
Abandonaram seus ninhos
E foram pra outro lugar.
Até a chuva parou,
Deixando a terra molhada,
E as nuvens carregadas
E todas as poças d'água
Refletindo o céu cinzento
Como espelhos da minha alma
E da minha solidão. Seu Vizinho7:43 PM
Terça-feira, Dezembro 10, 2002
Trecho de um texto do Mr. Manson, do Cocadaboa, sobre o Michael Jackson.
"Pessoalmente, já desconfiava que havia algo errado com esse cara desde quando ele inventou o "moonwalking". Eu era apenas uma criança e não entendia nada do mundo, mas porra, o maluco parecia estar andando para frente, mas na verdade andava para trás! Tem coisa mais bizarra do que isso? Sério! Qualquer imbecil pode ser pedófilo, andrógino ou trocar de raça, são todas coisas que se aprendem na escola, mas para andar de costas é preciso ter algum tipo de desvio comportamental muito grave."
Morri de rir. O resto está aqui. Seu Vizinho2:32 PM
Segunda-feira, Dezembro 09, 2002
Abstinência 2.
Já fazia muito tempo que eu não ouvia esta música. Pensei que estivesse curada do seu efeito, mas de repente eu podia ouvir novamente cada "tum" do meu coração tão alto que era quase ensurdecedor, e sem dificuldade maior era possível escutar meu sangue gelado reaquecido passar novamente por dentre minhas artérias e eu suava...
Em pouco tempo a respiração tornara-se ofegante e uma súbita sensação de estar tonta veio a tentar derrubar meus sentidos. O peso do tempo, dos anos, caía todo agora por sobre minhas lembranças e minhas costas pesavam e a saudade bateu como uma fome mortal. Sinto que acordei de um longo inverno. Meus olhos escuros quase que cegaram-se diante da luz que brilhava forte dentro do peito. E a música... ecoava em meus ouvidos, mais alta e presente do que jamais fora. Cada nota, cada acorde, fazia agora parte das minhas células, era parte de mim, minha genética...
Não posso mais viver sem esta música, e preciso cada vez mais dela. Meu corpo está se tornando música, sinto meus membros fluírem. Quero tornar-me esta música e então ecoar eternamente para outros que também dependem dela como eu, até ecoar no seu ouvido, entrar em você e, talvez assim eu possa, depois de tanto tempo, entrar no seu coração, onde jamais estive de fato, e talvez eu possa faze-lo sentir tudo o que sinto, e talvez eu possa faze-lo me amar como eu te amo. Pelo menos até a próxima música, talvez eu possa... Mata Piolho11:57 AM
Sexta-feira, Dezembro 06, 2002
Fiquei doente esta semana. Acho que está no ar uma virose daquelas. Coisas que todos têm e nenhum médico sabe dizer o que é... Típico. Mas foi bom, perdi uns quilinhos, finalmente entrei numa dieta de verdade, expurguei todo o mal de dentro de mim, fiquei em casa um dia inteiro vendo TV, vi tudo o que presta e que não presta, de Simpsons ao Falando Francamente. Ficar doente na atual situação é praticamente uma semi-férias, é a minha forma de usufruir de um direito que não tenho, pois não trabalho dentro da lei. E férias de quem não tem direito é assim... um dia inteiro em casa, com dor de barriga, comendo mal e vendo porcarias na TV. Mata Piolho9:59 AM
Quarta-feira, Dezembro 04, 2002
Eu confesso: sou uma fraude. Sou um blogueiro de meia-tigela, quase nunca tenho inspiração para escrever nada. Da última vez eu me aproveitei da boa vontade do Carlos Drummond de Andrade. Agora é a vez de surrupiar um texto do Vinícius de Moraes.
Para uma Menina como uma Flor
Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.
E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.
E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.
E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.
E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.
E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.
E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor. Seu Vizinho3:33 PM
Fura Bolo comunica:
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